Café com Manga

Vasculhando meu arquivo pessoal, achei essa pequena crônica que escrevi em 2006, no primeiro ano da Faculdade (ao fim do texto, 1o. NP significa 1o ano noturno par, na classificação da Faculdade de Direito da USP). O pessoal gostou e saiu no jornal da Faculdade. Eu, ainda "caloura", fiquei honrada. É curta, vejam o que acham...! Dedicada a todos que sabem que o único momento que existe é o presente. Deve-se respirar fundo, esvaziar a mente e vivê-lo.


CAFÉ COM MANGA | COFFEE WITH MANGO



Estava em cima da hora. Ele precisava pegar o carro na garagem e sair para a faculdade imediatamente, a risco de não conseguir escapar do trânsito da Rebouças. Olhou pela janela e viu o céu branco, manchado de cinza, mas ainda iluminado. Mais tarde talvez chovesse. Os galhos das árvores moviam-se; ora descontroladamente, como sob efeito de um redemoinho, ora suavemente, acompanhando uma brisa. Uma ventania instável, caótica. Por alguns instantes, todo o movimento cessou e nenhum ruído atravessou o silêncio de seu quarto; o tempo tinha congelado. Com os olhos fixos nos galhos, agora estáticos, o ouvido atento, sentiu um pedacinho do vácuo universal. Começou a imaginar uma explosão, um fogo que começasse tímido e lento, no telhado da casa da frente, e aos poucos se alastrasse violentamente por todos os corpos materiais da rua. Sua janela seria a moldura de um espetáculo. E ao ver tanta coisa queimar, talvez o frio que sentia diminuísse. 

Às seis e vinte da tarde apresentaria um seminário sobre Montesquieu. Era parte da formação crítica e consciente proposta por sua faculdade de Direito. Não seria apenas um operador, um dogmático. O líder do grupo já lhe enviara por e-mail a parte que deveria falar: a teoria da tripartição do poder. Montesquieu era barão, era amigo do rei. Como bom amigo, era também inimigo; queria ser melhor que ele. Antes de sair, pegou a folha com seus grifos e releu-a. Natureza, necessidades do homem, paz. Saboreava o sentido das palavras. Sociedade ideal seria uma ilha tropical, com alguns homens e mulheres nus dançando e chupando manga. Sorriu. 

Fechou a mochila e desceu as escadas, pulando degraus. Lembrou-se de quando ia deslizando pelo corrimão, de lado. Sentiu vontade de fazê-lo. Nessa época jogava futebol o dia todo, fingia que ia tomar banho, cuspia nas meninas. Preferiu continuar nos degraus; já eram quase cinco e meia. Entrou no carro, ligou o rádio, deixou em algum desses programas em que se passam trotes insultando gratuitamente a pessoa que atende, até fazê-la perder o controle; ou chamam a celebridade do momento para debater a própria sensualidade. Era prazeroso tudo aquilo. Pessoas sendo ridicularizadas em público, tendo a intimidade escancarada. Ria e gostava de ouvir a própria risada; seu vidro tinha insulfime, sua diversão era totalmente privada. 

As esquinas estavam repletas de pessoas em mesas de bar. Jovens, bebendo, desfrutando. Idealizava a felicidade daquelas pessoas: como estavam alegres! Como a vida podia ser leve! Pensar no seminário que tinha de apresentar lhe dava tédio. Não falava bem em público. Seria interrompido pelo professor, pelo colega do grupo, não saberia retomar depois. Perguntas surgiriam, colegas enciclopédicos falariam longas exposições de seus verbetes e encerrariam com uma pergunta. O que fazer? Ele não lembraria nem o assunto da questão. Outros, para mostrar participação, fariam comentários redundantes que o obrigariam a repetir boa parte do que já fora falado. Outros dormiriam ou fingiriam dormir para mandar mensagens pelo celular. No final da apresentação, o professor diria quais pontos do assunto eram relevantes para a prova. O seminário teria sido desnecessário. 

Ele estava no meio da Rebouças há pelo menos vinte minutos e ainda faltava descer a Consolação. Deixou o rádio ligado, era quase um stand by mental. Reparava nos anúncios: “Não gaste combustível, queime calorias”. Não gostava do ambiente de academias. Era como um laboratório, vários hamsters correndo em suas esteiras giratórias em busca do físico perfeito. Perto da Oscar Freire havia um outdoor particularmente especial, de uma marca inglesa de roupas. Nele estava uma dessas meninas magras, de rosto quase infantil, vestindo uma lingerie preta. Como o beijaria? Como seria no amor? Ele saberia agradá-la. Fantasiava. O sinal abriu. 

Aproximava-se do centro da cidade. Vendedores de dvd pirata, salgadinhos, capinha de celular; homens-placa, cartomantes; gente de vida peculiar, ele pensava. Peculiar, aliás, era ele. Cada um com sua vida, seus traumas, seus amores, seus sonhos. Gente indecisa, angustiada, apaixonada. Eram como feixes de luz coloridos, que após se cruzarem, prosseguem sem mudar de rumo ou de cor. Passam ilesos pela faixa de pedestres, andam alguns quarteirões, tomam ônibus, chegam em casa, ligam a tv. Era muita solidão junta. Gente implorando por um pouco de prazer; prazer que é tão fácil encontrar no outro. Uma conversa, um abraço, um bom dia. O viaduto do Chá era um charme: a mesma São Paulo do século dezenove, com prédios mais altos, mais gente, menos chapéus. 

A poucos metros da faculdade, passando pelos estacionamentos, havia uma mulher jovem, de botas, casaco de couro, cabelos loiros e compridos. Segurava sua bolsa delicadamente. Olhava-o. O sinal fechou. Não havia ruídos, seu corpo paralisou-se; era aquele vácuo. Como um convite. Pensou em Werther, “tempestade e ímpeto”. Ela sorri. 

Ele avista a faculdade e estaciona o carro. Sente seus batimentos, tinham um ritmo descompassado, novo. Sua mente funcionava caoticamente. Pensou sobre o futuro, o que o esperaria? Sobre viajar, amar, voar. Ele sempre quis voar! Queria fazer tanta coisa. A mulher não estava mais lá. Talvez fosse uma alucinação. 

Estava em êxtase. O sangue parecia, momentaneamente, fluir com mais velocidade. Seis e vinte. Olhou em volta, o mundo continuava funcionando como sempre. Sentia aquele ar do centro, uma mistura de poluição com cheiro de cidade do interior, cheiro de boteco de estrada. As ruas eram irregulares, ali um projeto reto e quadrado logo fica torto e disforme. Andou até a esquina e virou. Passaria em um sebo, tomaria um café, depois encontraria os amigos perto dali. A faculdade poderia esperar; um dia, uma semana, um mês. Afinal, ele ainda era calouro. 

Luiza Rezende (1º-NP)


***


Se você quer ficar sabendo quando os próximos vídeos forem lançados, inscreva-se no meu canal do YouTube. Se você quer receber os próximos posts deste blog por email, clique aqui.

Na coluna da direta deste blog você encontrará os posts mais populares, assim como o arquivo com todos os posts publicados. Se você sentiu falta de algum tema, escreva-me

Até a próxima!

Luiza S. Rezende
Advogada empresarial especializada em startups
about.me/luizasrezende

Foto: Panther Media/ CrayonStock